2013-10-21

Primeira Lágrima

E então três meses tinham passado, e nada de muito relevante tinha acontecido.
Era interessante notar que por mais que as pessoas estejam sempre mudando, elas sempre continuavam a mesma coisa.
Por fora até poderia parecer diferente, mas por dentro nada tinha mudado.

Muitas pessoas seguiam vivendo suas vidas baseadas em fachadas.
Quem tinha a mais bonita? Qual era a mais limpa? O que poderia ser feito para refazer ela?

E então seis meses tinham passado, e nada de muito relevante tinha acontecido.
O que se notava era que, pouco à pouco, as coisas estavam começando a voltar ao normal.
Ainda existia algo perturbando lá bem no fundo de tudo, como se tivesse uma agulha solta dentro.

O importante era sempre se mostrar uma pessoa forte, centrada e coerente.
Mesmo nos seus maiores defeitos, achar uma forma de culpar algo ou alguém.
Afinal de contas, o mundo inteiro é que está errado, e não você mesmo, não é?

E então 3 anos tinham passado e tudo estava irreconhecível.
Pessoas casavam, pessoas mudavam de emprego, compravam um carro novo, se separavam e então se casavam de novo.
Mesmo se a cor do cabelo mudasse a cada semana, existia algo dentro incolor, que não podia ser pintado.

As pessoas gostavam de se mexer pra não parecerem árvores mortas.
Não queriam criar raízes, não queriam ver o  mesmo céu, a mesma rua, o mesmo rosto.

E então apenas 1 dia tinha se passado...
E tudo parecia que tinha morrido dentro dela.
Não tinha mais fome, não tinha mais sono, mais amor, mais raiva.

De uma hora pra outra, tudo perdeu o seu significado.
Se tirasse uma foto, pra quem ela iria mostrar?
Se cantasse uma canção, quem ouviria?
Quem a elogiaria? Quem a criticaria? Quem a odiaria? Quem a amaria?

E então 1 semana tinha passado...
E na missa de 7º dia ela pôde finalmente derramar a sua primeira lágrima
Pôde finalmente lamentar a sua perda, finalmente entrar em luto.

E com um sorriso amargo no rosto, disse para si mesma:
"O que eu vou fazer da minha vida agora que você morreu?"

Um comentário:

trovador disse...

Somos senhores de nós mesmos, ou não? Você faz aquilo que quer? Ou aquilo que esperam que você faça? Eu sempre te achei estranho... De certa maneira, parecido comigo. Difícil dizer. Eu sinto em vc aquele poder que eu sinto em mim (de poder fazer qualquer coisa) e da mesma maneira, sinto a hesitação e a preguiça.
Fico triste pela 'morte' que eu ACHO (um acho mto achado mesmo) que entendo (inclusive, fiz algo parecido de um período de 7 dias da 'morte' de alguém). Meus pêsames :/
Mas repito a pergunta: Não é senhor de si mesmo? E se for, o que você QUER fazer?